15.7.09

Ingen tårer skal fylle dine netter.

[14h10min]

Já perdi a identidade
N’alguns cantos da cidade
Numas vezes, fui furtado
Em passos mal iluminados.

Ou tenha me descuidado
Algumas vezes, verdade
Foi por minha má-vontade
Mas que importa?, está acabado.

Ficou um pouco em cada canto
Feito pedaços de um manto
Que já foram se rasgando
Desfazendo, desmanchando.

Num açoite desumano
D’um caminho tão nefando
Que meu ser, em desencanto
Foi despido de seu pranto.

Tive que achar u’a carteira
Outra cara verdadeira
Que de algo me valesse
Em que eu me reconhecesse.

P’ra que algo acontecesse
E me trouxesse interesse
Numa angústia tão certeira
E o abismo?, sempre à beira.

Caído n’outras desventuras
Vestindo roupas escuras
Hoje, qual será meu gosto?
Quem me sentirá o gosto?

Quem ocupa o tal posto
De sentir o meu desgosto?
E que possa, por ventura
Sentir ele minh’amargura.

[14h22min]

13.7.09

It's the dawn of descending.

Devorando rimas que não há no dicionário: mergulhando no caos, o príncipe dos porcos, da poesia em ruínas, escrevendo no papel de idiota no qual foi limpo o sangue sujo, as lágrimas acres, o suadouro vil. Por isso adoça meu dia de bagaço com melaço de cana do engenhoso mel engendrado nas ferroadas do teu toque na minha pele, que roubaram o amargo do mel e o pecado de todos os frutos. Marejados do verde-marinho que jamais vi, cabelos ondulando ao vento, deixo as duas praias em chamas e caminho para dentro dos campos mais inóspitos, onde são plantados os sonhos que todos se esqueceram de colher.

12.7.09

Over orchards of grievance, sorrow and tears, this beautiful silence calls me now.

Aonde vai o amor quando ele acaba?
Eis um mistério cheio de sujeira
De quem a paixão tornar-se-á escrava?
Quem enterrar-se-á naquela areia?

É um bater de porta sem aldrava
Mosca sobre o cadáver sem pôr larva
Criatura que será só tão parva
Coisa fútil que nunca se salvava.

Não, eu não vou te ver nem que tu morras
Sei que não haverá que te socorra
Nas vãs estrofes deste cantochão.

Mesmo insetos recusam o teu corpo
Barcaças negam tê-la como porto
- Teu destino será a solidão.

10.7.09

Esquecer o amargo do dia e a sorte que sonhou ter.

[16h20min]

Deixa eu passar na tua casa
Num final de tarde ensolarado
Levar-te umas flores e te encher de beijos
E rirmos de chorar com as taças de conhaque
Trocar abraços intensos e comovidos
Na cama de lençóis desarrumados

À paisagem útil da janela
Nas roupas misturadas pelo chão
No chiado dos discos na vitrola
Ao movimento do botequim da esquina
E os cachorros revirando sacos plásticos

De mãos dadas, eu e a madrugada
Com a névoa do perfume nos teus lábios
A respirar profundamente essa ventura
Que surgiu nos teus olhos de primavera.

[16h28min]

8.7.09

Nem me sinto mais só, dissolvido nos homens iguais!

Meu coração é seu de papel passado e amassado
Pele de roupa que te veste o corpo
Molhado do oceano que cai das nuvens pálidas
Suado no estandarte das estrelas cálidas
Que reluz baldio em qualquer horto
Preciso de você como preciso do mar
Para poder respirar, revirar o coração
Despedaçado ao pé do teu portão
Olhos de não, boca de sim, de se entregar
Rasgado e avoado no vento com as folhas
Na desnatureza das enormes escolhas
As mensagens espelhadas na janela
A verdade adornada por mil flores.

Death came to me on a somber morning.

O Sol frio está se recolhendo
Levando consigo todos os sonhos
Em estertores medonhos
̶ O que está acontecendo?

Não me deixe na escuridão
Não deixe vazia essa imensidão de mim
Que você ocupou, sem querer, assim
Invadindo feito enchente
Num sentimento tão urgente
̶ Não me tire do coração.

Na madrugada ainda mais triste
Uma luz mortiça ainda brilha:
Reluz a bastarda filha
Do que nem sequer existe.

30.6.09

Ah, que sabor de loucura este da vida organizada!...

Sinto um frio que não é do inverno
Não vem da espinha, não vem da barriga
Vento que sopra sem mover coisa alguma
Um gélido excesso do que me falta
Um frio de ausência, um frio do sem-fim
Faz-me o que não devo querer
E me traz o que não posso ter
Tristeza para você, tristeza para mim
No céu frio sobre a maré cinza e alta
Onda que vai e vem deixando a espuma
Abraça-me a angústia, aquela velha amiga
Num caos de existir que parece eterno.

Ciclones de estrelas desenham-se livres e fortes diantes de nós.

[Escrito com Mariel Moura entre 00h47min e 01h18min]

Sob os auspícios da Estrela de Absinto, durmo com os anjos psicodélicos de faixa e asas negras, anjos dos círculos benzodiazepínicos, anjos que acalmam, enlevam, carregam carcaças feito valquírias. Miríades de anjos caleidoscópicos que sopram sonhos e pesadelos, que me cobrem de flores de vida e morte, que me desabam o manto da escuridão, da noite sem sono, do adormecer sem sonhar, da alegria química, do sorriso paranóico, da queda inevitável. Esses, esvoaçantes de aura cinza, de cauda peculiar, clamam aos animais pitorescos que nos circundam: oxalá, meus filhos de semblante triste, oxalá estivessem aqui, vindo conosco, desprezíveis. Num sorriso triste de quem está cansado da monotonia da eternidade infindável desde antes da aurora dos tempos, sobre os pés puríssimos que jamais tocaram o orbe sujo e cheiro de vícios e desventuras. O cansaço, feito um cacto afogado em chamas solares, perdido em pó de bicarbonato, com os tendões cansados e pés mancos, sol magnético revirando sob a lousa crestada entre nossos passos incertos na estrada de tijolos velhos e amarelados, ouro-de-tolo pelas margens do adeus, qual se ouviu dizer paralelamente a outras cores de novos tijolos ̶ e o magnetismo que o levava embora vinha de cima, claro, e de todos os lados, como uma infindável melodia superior a qualquer tecnologia de som ̶, foi saudado perversamente pelas árvores que balançavam ante o vento etéreo, derramando suas folhas e flores, que, num arranjo inusitado e surpreendente de tão óbvio, ungiam mil coroas de flores para reis tumulares esquecidos no caminho. Lugar onde, preciosamente, os ritos de passagem e de congratulação aconteciam diante daquele jardim tempestuoso, verde, de cores inaudíveis, passos surdos, marchas descoordenadas e imperadores impotentes, untado pelo mel que as moscas infernais recolhem das flores do mal que um dia colhi no jardim de Hades, a fim de adornar seu pescoço e deixar seu cenho misterioso menos franzido. Um sorriso ácido, por favor, daqueles de derreter núcleos mortos de estrelas esquecidas. Quero uma supernova de antimatéria, o puro caos, o cais do porto que dá pro ponto sem retorno. Flores, frutos, de todo o perímetro das colméias que corroem estes tecidos de hipocrisia, oh!, todo o sentido e a anestesia que te faz caída como uma pétala entorpecida. Ele não vai te perturbar, nem canibalizar suas poucas vestimentas divinas, serenas. Retirem-se desta arena, deixem a medula e a elisão de sua parca consciência. E tudo enfim explode num sol infernal e abrasivo, impiedoso de tanto rancor, incinerando em puro delírio que explode colorido nos cinco sentidos. Foram-se os sonhos, resta a terra desolada de cores apocalípticas. Foram-se os cantos, os docentes, os tupinambás de lá, o rico sem bagatela, a pureza cadente da moça que chora sozinha no quarto, a surpresa e o grito áspero, todas as tribos e os movimentos disseminados do dissabor das diferenças. Ninguém vê, quero a destruição puríssima, ajudar o astro-rei a colocar tudo debaixo do tapete. Somos todos cinzas jogadas sobre os tapete dos valores que ninguém quer assumir. Aqueles que custam muito e não vale nada. Do pó de estrelas ao pó sob o chão de tacos da casa de subúrbio. Com um messias sujo de lama, sangue e excrementos, humano demais, humano demais.

25.6.09

Tenho os olhos tão cansados de te ver.

O mundo é uma miçanga amarrada ao colar
Ao redor do pescoço cansado de Deus.
Do zênite ao azimute, um dia por vez;
O final do mundo antes do final do mês.
E nós continuamos no vão Universo
Ao dissabor do mesmo desejo perverso
De um deus que não acredita mais nos seus ateus.
- Se Deus morrer, invento outro em seu lugar.

23.6.09

May the king of gloom be forever doomed.

Um momento percebido de silêncio: no dia anterior, o momento que não veio, vento curvado sobre as folhas secas que jamais viram a noite. A pele esgarçada sobre os ossos trincados, feito uma bandeira de trapos de glórias perversas, jaz quarada de sangue sujo e negro sob um sol de má vontade. O céu descolorido se derrama em nuvens sem graça espelhadas no chão. O sorriso desfigurado, amorfo, deixa todos apreensivos, num augúrio de má sorte e desventura. E eu não acredito, e eu não acredito, e eu não acredito. Atrás do Sol, debaixo das águas, no fundo do peito, a mesma verdade: ausência. Sonhos em vão caindo dos olhos, feito pétalas, poeira de estrelas, pedras do caminho, esperança queimando nas mãos frias. Corpo morto, vontade viva e desnuda. Sem pudor, sem poder.

17.6.09

But if you should remember, hope you smile and wish me well.

Acorda agora, levanta sem demora
Corre, junta as roupas, recolhe as provas
Do nosso amor que não aconteceu.

Mete no fogo essas lembranças
Rasga, amassa e esquece a folhas
Das histórias, das memórias
Que já não nos servem mais.

Tira o meu gosto do teu gosto
Teu cheiro acre da minha cama
Sai pela porta e não volta.

Nem houve química entre nós
Nada mais que desventura
Somente a mítica ilusão
Invenção de nós dois juntos.

15.6.09

Para além vivem as primaveras eternas.

Os pés chagados de tanto caminhar
As três quedas carregando a tua cruz.
Mas eu sequer acredito em você!
E você também não acredita em mim!
Por que essa história não tem fim?
Por que dessa forma tem que ser?
Pregados a ela, nossos corpos nus
Numa grande perdição de se salvar
Num sorriso paranóico e sarcástico
Ao dissabor de um deus que gosta
No despencar das fúnebres noites
De culpar seus filhos inocentes
De fazer trincar todos os dentes
Ao retalhar com ríspidos açoites
Deixando ensangüentada cada posta
No inferno de um amor tão drástico.
Veja só o frio infernal que faz aqui!
Eis o gélido círculo dos traidores
Marcados pelo fado, esquecidos
Aqui queimamos, jazemos abraçados
Perante os olhos dos vales desolados
Sobre os rostos congelados, distorcidos.
E diante desses últimos estertores
Resta-nos deitar no chão e rir!
Ah! Cair de um abismo n’outro abismo
Empurrado com a ajuda da tua mão
Disputado por todas as divindades
(Que desejam entender o salvamento)
(Mediante o próprio aniquilamento)
Aos portões das celestiais cidades;
E para estender a tal condenação
Deixo-lhes esta elegia ao cinismo!

8.6.09

...e o ponto final depois da lágrima.

Lamber mais uma vez as feridas cadavéricas com línguas de fogo feitas luxúria e orgasmo violento. Qual um corpo corrupto de cristo mártir coberto de moscas numa cruz de redenção tardia, sob um véu de viúva que não se rompe ante a tempestade. Ó cravos do arrependimento, ó temor com travo acre de vinagre! Está consumado. O de lá se salva, o de cá se perde. Verdadeiramente era um filho-da-puta. Centuriões entediados, carpideiras fazendo um bom trabalho. Deposição é feita sem glória, cara-e-coroa de mesmo resultado. Caído ao pé da cruz de tantos erros, feito o primeiro querubim, num orgulho banal de quem já perdeu tudo e nada tem a oferecer. Ao vencedor, os vermes famintos.

4.6.09

A sun we seek, a sun we flee.

Take this bottle and drink it to the end
The drink itself, the sea, your blood
Dive and plunge yourself in gin
Goodness is evil and to be evil is good
Pale as death and black as sin
For a broken heart too hard to mend.

But sometimes the verses walk
And is so futile try to stalk
‘Cause they lose themselves in mazes
Made of misty and bloody daisies
It will bring three fails to each hit
Through scary and mean streets.

So only in my dreams it lasts
Marching over a promise full of strife
Always grim and going astray
Wandering through the gloomy nights
Dying as soon the dawn come to life
This is the history of every single day.

3.6.09

O poeta dorme sem necessidade de sonhar.

Urge a tempestade sobre as ondas cinzentas:

Versos ao mar!
Versos ao mar!

Versos de amar | sem lar | de se acabar |
Sem rima | sem métrica | sem técnica
Sem razão

Versos sem nenhuma explicação.